Foi em um domingo chuvoso que vi os últimos suspiros deste amigo. Corri para casa e peguei a máquina fotográfica para registrar seus últimos momentos. Cada clique era uma palavra trocada. Dividi as impressões na web e já no dia seguinte percebi que muitos outros queriam dar adeus ao velho Parque Alvorada. Jornalisticamente, alguém poderia dizer que tomei furo. Vários outros colegas de imprensa fizeram matérias sobre o fim do Parque, o que eu achei ótimo. Não prego a manutenção da tradição, longe de mim. Mas quando algo se esvai diante do crescimento de uma cidade, acho que ao menos devemos ter o direito de falar sobre isso. Relembrar. Contar para os que não sabem. Chorar. Falar. É o sagrado direito do luto.  Chorar a morte, isso faz bem. Fizemos juntos, falamos do Parque como se fala de alguém que morre, conversas esparsas pelos corredores do velório para tentar entender o enigma de uma vida que se encerra. Quase uma semana depois, último repórter a retratar o fato que já acabou, pego o microfone na mão e conto minha história. Desta vez, conto com palavras e as imagens do bom amigo e cinegrafista Nilson Machado. Sim, tínhamos em mente que chegamos depois de todo mundo. Foi bom assim. Chegamos com o espírito preparado, sabendo que o falecido cumpriu sua jornada por aqui e merece para sempre ser lembrado. Meu olhar fotográfico de uma semana antes foi incrivelmente parecido com o olhar do Nilson. Talvez seja uma prova de nossa sintonia, afinal trabalhamos juntos há alguns anos. Talvez fruto de nossa idade semelhante, penso que ele guarde também uma caixinha de lembranças de sua infância brincando no Parque, assim como eu o faço. Temos o direito de chorar por nossos mortos.

Reportagem exibida no dia 14 de novembro de 2008 no Jornal RIC Notícias 2ª edição. Reportagem de Luiz Andrioli, imagens de Nilson Machado, edição de Raphael Laffranchi e edição de imagens de Leda Lima. 

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