Adilson Farias

Sabe aquela cena de um barco parado em meio ao oceano, com as velas recolhidas e ancorado? É mais ou menos assim que me sinto nestes dias.

Trabalho há mais de duas décadas ilustrando livros infantis, e sempre tive a vontade de contar minhas próprias histórias para esse universo infantil. Depois desse tempo todo dando cor a textos de outros autores, tive a oportunidade de escrever e ilustrar meu primeiro livro 100% autoral, “OPA”.

O livro OPA, aborda o Alzheimer dentro da relação entre um avô inventor e sua netinha. Na história vemos o que vai acontecendo como o avô pelo olhar de sua neta. Uma história delicada e emocionante onde trata com leveza esse tema.
Acredito no potencial dessa história e em toda discussão que podemos tratar como família e sociedade sobre esse mal que aflige nossos idosos. Mas agora é o momento de esperar.

Tudo ia bem, conseguindo fazer um bom trabalho junto a editora Prosa Nova e assim que o livro estava prestes a ir para gráfica, veio a epidemia do coronavírus. Precisamos recolher as velas. Pausamos o projeto onde haveria o lançamento do livro, oficinas de desenho para crianças e contação de histórias. Estaríamos tratando esse tema, com um retorno para sociedade muito bem planejado por toda equipe.

É muito estranho ter um sonho pausado, mas neste momento é mais que compreensível. Sabemos que em algum momento essa fase vai passar e poderemos voltar a rotina, talvez não a mesma, mas de alguma forma seguir em frente com projetos e realizar sonhos.

Nesse momento a viagem do barco balão (invenção do Opa) está ancorada, esperando ventos mais seguros para seguir navegando. A mim resta esperar para lançar o livro, e nessa pausa sigo criando futuras histórias, pintando meus desenhos e torcendo para que logo possa começar a navegar com o Opa por aí.

Adilson Farias
Autor e ilustrador. Estreia na Literatura Infantil com o livro Opa pela Editora Prosa Nova

 

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Arte parada no ar

Manifesto
Arte parada no ar

O perigo vem pelo ar
O simples respirar é um risco
Estamos em suspenso
Atônitos
Parados

Se antes ofegantes
pelos tempos sombrios da política,
agora interrompemos a inspiração
Nosso ofício
marcado pelo encontro de pessoas
parou

Artistas isolados
Os primeiros a parar
Sem saber quando poderemos voltar

Nossos palcos cobertos de poeira
Refletores no escuro
Exposições com quadros no chão
Músicos sem plateia
Picadeiros sem graça
Sapatilhas guardadas 
Livros inéditos
Câmeras desligadas

Registramos nosso momento em imagens e textos.
Criamos, sim, dentro dos limites deste novo normal
que ainda não imaginamos
nem nas distopias mais futuristas

Um rascunho
Um ensaio aberto
Um improviso

Um respiro
mediado por telas digitais
e máscaras

Arte parada no Ar
Um retrato
e um desabafo
de criadores que resistem

Arte parada no ar é um manifesto em construção.
Nossa inspiração vem do texto “Um grito parado no ar”, de Gianfrancesco Guarnieri. A peça estreou em 1973 em Curitiba, com direção de Fernando Peixoto. A obra driblou a vigilância da ditadura de então ao usar de uma linguagem metafórica para discutir os problemas sociais. O drama fala sobre as dificuldades de se fazer arte em um tempo de repressão.

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