Fonte: Curitiba de Graça 

Opa, que traz a história de uma neta e seu avô com Alzheimer, é um daqueles livros infantis que os adultos vão adorar

Por Irma Bicalho

Era uma vez um avô muito criativo que era inventor de várias coisas incríveis. Ele usava um chapéu cheio de lâmpadas acesas, que representavam as coisas que ele criava e lembrava. Esse avô era alemão, e por isso sua netinha o chamava de Opa, que é vovô nesse idioma. A netinha adorava ouvir as histórias do Opa, mas um dia ela notou que as lampadinhas do chapéu começaram a se apagar.

Esse conceito lúdico de uma relação entre uma criança e um avô com Alzheimer é a emocionante história contada no livro Opa, de Adilson Farias, publicado pela Editora Prosa Nova e lançado este mês em Curitiba.

Adilson Farias é um experiente ilustrador de livros infantis e Opa é sua primeira obra totalmente autoral. O tema, delicado e sensível, foi realmente vivenciado em sua família e a história que ele criou foi uma maneira de ajudar a filha pequena a entender a doença do avô, e posteriormente, a morte do Opa tão querido.

Nesta entrevista ao Curitiba de Graça, Adilson fala sobre o processo de criação, a experiência de virar escritor e criar um livro para a própria filha e sobre a profissão que ele ama.

Você é ilustrador há algum tempo. E agora é escritor também. O livro é uma homenagem e uma necessidade de expressar essa história. O que o motivou mais?

Eu já trabalho há algum tempo com literatura infantil para o mercado editorial brasileiro, ilustrando textos de outros autores. Sempre tive vontade de fazer um livro 100% autoral. No caso do livro OPA, a inspiração veio da minha necessidade como pai de tentar explicar para minha filha, na época ainda com dois anos e meio, o que tinha acontecido com seu avô, porque ele mudou com o tempo e até mesmo o porquê de ele não fazer mais parte da vida dela.

Antes de todo esse processo da doença, eu já via no meu sogro, Neri Horn, o potencial para o personagem de um avô inventor. Ele gostava de inventar coisas, adaptar, transformar. Eu sabia que em algum momento ele iria aparecer em algum livro meu. Mas, de fato, a ideia inicial surgiu devido ao sentimento paterno de tentar confortar minha filha.

Você não chegou a realizar uma pesquisa sobre o Alzheimer para escrever Opa. Não foi sua intenção informar sobre a doença em si. A maneira carinhosa como trata o assunto tem como objetivo ajudar as pessoas a lidar com essa situação?

Exatamente. Na época, eu não encontrei nenhum conteúdo que abordasse esse tema diretamente para crianças. Encontrei material mais teórico, mas nada em formato mais lúdico. Por isso eu acredito muito que esse livro, pela narrativa visual e o texto, ajude os pais a terem essa conversa com seus filhos, não somente em relação ao Alzheimer, mas no tocante à fase final da vida das pessoas. Minha filha, em um período de dois anos, viu dois dos seus avós partindo: o Opa e minha mãe. Vejo como necessários livros que abordem esse tema.

Adilson, a filha Nina e a esposa, também ilustradora, Sonia Horn. Foto: Acervo da família

Qual a reação de sua filha hoje, aos 5 anos, quando você lê a história para ela? O fato de ter vivenciado a doença do avô e de ter a história contada e ilustrada pelo pai, de certa maneira, ajudou a enfrentar emocionalmente o que aconteceu?

Como eu falei, na época ela era pequena e não estava muito por dentro do que acontecia, ainda estava protegida das perdas da vida pela inocência da infância. Minha filha Nina está crescendo, vendo os pais trabalhando com ilustração para livros didáticos e paradidáticos, isso para ela é algo rotineiro. Na produção do livro, quando estava pintando as ilustrações, percebi um interesse maior dela sobre o livro, pois ela sabia que estava na história. E isso me ajudou em alguns momentos a responder as perguntas dela sobre os avós. Ela é bem crítica em relação ao meu trabalho, sempre questionando por que eu faço certas coisas no meu desenho e, se não gosta de algo, ela fala sem rodeios. Quando chegou o livro pronto em casa, ela criticou a cor de cabelo que eu utilizei na personagem do livro, reclamou que não era a mesma cor de cabelo dela (risos).

Como foi para você, ilustrador experiente, ilustrar um texto de sua autoria? Como foi o processo criativo?

Foi uma experiência ótima! Conseguir colocar no papel tudo que está na sua mente é algo muito bom, é um sentimento de liberdade criativa muito engrandecedor.

Optei por fazer todas as ilustrações com técnica tradicional de pintura em aquarela. No início, eu queria fazer o livro todo só com imagens, sem texto, mas percebi que precisava do texto para ter uma linha de pensamento que desse a sequência da história, para deixar a narrativa mais clara e funcional. É um livro em que, muitas vezes, o texto some e quem descreve a história são as imagens. Como ilustrador, esta é a minha maneira particular de contar uma história.

Além do lançamento do livro, você e a Editora Prosa Nova realizaram várias ações, como palestras, cursos. O que achou dessa parte? Houve uma boa interação com o público?

Além do fato de ser meu primeiro livro, é também a minha primeira vez em um projeto de lei de incentivo. Eu tinha uma pequena noção de como isso funcionava, mas, na prática, vendo todo o processo e todo os benefícios em que um projeto bem feito resulta, percebi o quão importante é esse tipo de iniciativa.

Já recebi vários feedbacks positivos de pessoas que assistiram às oficinas de criação de personagens, que estão disponíveis no site da editora, assim como a palestra sobre envelhecimento saudável. Todo esse retorno social me parece algo extremamente positivo e, sem dúvida, beneficia profissionais da área e possibilita às pessoas em geral um maior acesso à cultura.

Pode citar alguns dos seus trabalhos preferidos como ilustrador?

Tenho muito carinho por quase todos trabalhos que fiz, principalmente aqueles em que houve uma grande identificação com o texto e uma boa parceria editorial. Isso permite que você faça o seu melhor. Tenho três livros que ilustrei de que gosto bastante: “A Escolinha do Mar” e “João e Maria”, ambos de Ruth Rocha, e “Uma História de Páscoa”, de Ana Maria Machado. Todos eles pela Editora Salamandra.

Você é um artista, casado com uma artista. Sensibilidade e paixão devem ser importantes para o seu trabalho. Fazer o que se gosta é a realização de um sonho? E o mercado é um desafio intimidador?

A Soninha (Sonia Horn) atua na mesma área que eu: livros didáticos e paradidáticos. Ela tem uma abordagem diferente da minha em relação à técnica utilizada, enquanto eu vario entre pintura digital e aquarela, ela trabalha com recortes em papel. Ano passado ela fez um excelente livro para um autor inglês. O livro se chama “Mrs. McParr’s Clapped-Out Car”.

Eu não me vejo fazendo outra coisa da minha vida além de desenhar e ilustrar para livros e materiais infantis. É algo que sempre me envolvo com coração, sempre procuro fazer meu melhor, passar meus sentimentos através das imagens. É a minha forma de me expressar para o mundo. Um sonho realizado com certeza.

O mercado neste momento oferece uma grande dificuldade para a publicação, sendo você um novato. É difícil uma primeira porta se abrir. Mesmo tendo trabalhando com as principais casas editoriais brasileiras, não consegui espaço para publicar meu livro nas grandes editoras. É um mercado concorrido, é necessário bastante persistência, procurar estar sempre atualizado e, principalmente, fazer um bom trabalho. Resumindo: estar preparado e ser insistente, acho que é esse o melhor caminho.

 Gostou da experiência? Tem novos livros ou projetos a caminho?

Eu adorei a experiência! Me fez muito bem poder estar dentro de todo o processo de criação, abriu minha mente para outras histórias. Tive uma ótima assistência editorial junto a Editora Prosa Nova, com a Celina e o Luiz Andrioli. Isso foi fundamental para me motivar a querer mais. Com certeza virão mais livros e eu diria que trabalhar somente com minhas histórias é o próximo sonho a ser conquistado.

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