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3 de setembro de 2026

Leitura compartilhada em casa: só 14% das famílias fazem

O Brasil entrou pela primeira vez no estudo de primeira infância da OCDE e empatou com o mundo em letramento. O buraco apareceu em outro lugar — e boa parte dele está na sala de estar, não na sala de aula.

Mulher e menina de cerca de cinco anos sentadas no sofá, olhando juntas para o mesmo livro ilustrado aberto.
No Brasil, 53% das famílias nunca ou raramente leem para a criança de 5 anos. Dado: IELS/OCDE, divulgado em maio de 2026.

A leitura compartilhada em casa é rotina para 14% das famílias brasileiras — contra 54% na média dos países avaliados. O número está no IELS, o estudo internacional de primeira infância da OCDE, que ouviu e testou crianças de 5 anos em nove sistemas educacionais e teve o Brasil como único participante da América Latina.

O contraste com o resto dos resultados é o que faz o dado incomodar. Em letramento emergente — a habilidade de lidar com sons, letras e sentido antes de ler convencionalmente —, a criança brasileira de 5 anos marcou 502 pontos, com a média internacional em 500. Empatamos. O problema aparece em matemática, em funções executivas e, sobretudo, no que acontece antes de a criança chegar à escola.

O que é o IELS, o estudo de primeira infância da OCDE?

O IELS (Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-estar da Criança) é a primeira avaliação internacional comparada dedicada à primeira infância, conduzida pela OCDE com crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola. Os resultados do segundo ciclo saíram no relatório Building Strong Foundations for Life, publicado pela OCDE em maio de 2026, com dados de Brasil, Azerbaijão, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Inglaterra, Malta e Países Baixos.

A amostra brasileira teve 2.598 crianças em 210 escolas — 80% públicas e 20% privadas — no Ceará, no Pará e em São Paulo. A coordenação nacional foi do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da UFRJ (LaPOpE), com os pesquisadores Tiago Bartholo e Mariane Koslinski. A escala funciona como a do Pisa: 500 é a média internacional.

Como o Brasil se saiu no IELS?

O Brasil ficou na média internacional em letramento e em habilidades socioemocionais, e abaixo dela em matemática e em funções executivas. É um resultado desigual entre domínios, e é essa assimetria que dá a pauta.

Domínio avaliadoBrasilMédia internacional
Letramento emergente502500
Numeracia emergente456500
Atribuição de emoções501500
Identificação de emoções491500

Os 44 pontos abaixo da média em numeracia emergente são a maior distância registrada pelo país. Nas funções executivas — memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade mental —, as três dimensões ficaram abaixo da média internacional. São exatamente as capacidades que sustentam a alfabetização no ano seguinte: segurar uma instrução na cabeça enquanto se executa outra, esperar a vez, mudar de estratégia quando a primeira não funciona.

Por que a leitura compartilhada em casa é o dado mais duro do estudo?

Porque 53% das famílias brasileiras nunca ou raramente leem para a criança de 5 anos, e só 14% leem de três a sete vezes por semana — a frequência que 54% das famílias alcançam na média internacional. É uma diferença de quase quatro vezes, e é o indicador em que o Brasil mais se afasta dos outros países.

O IELS chama isso de ambiente de aprendizagem familiar: o conjunto de práticas que acontecem fora da escola e que chegam à pré-escola já embutidas na criança. Não se trata de culpar a família. Trata-se de reconhecer que, para metade das crianças brasileiras, o único adulto que lê em voz alta para elas com regularidade é o professor — e que a hora da leitura na pré-escola, muitas vezes tratada como intervalo entre atividades “sérias”, é o principal insumo de linguagem que essas crianças recebem.

O que os números dizem sobre desigualdade?

A desigualdade brasileira no IELS é pequena em letramento e grande em matemática e memória de trabalho. Em numeracia emergente, crianças de nível socioeconômico alto marcaram cerca de 55 pontos a mais que as de nível baixo; no reconhecimento de numerais, o domínio da habilidade cai de 80% para 68% entre os dois grupos. Na memória de trabalho, a diferença entre os extremos chega a 39 pontos.

O recorte étnico-racial acompanha: em numeracia, a distância chega a 40 pontos — a maior entre os recortes demográficos medidos. Ou seja, aos 5 anos, antes de qualquer prova, antes do Ideb, antes da alfabetização formal, a desigualdade já está montada.

E o uso de telas na pré-escola?

Metade das crianças brasileiras de 5 anos usa dispositivo digital todos os dias: 50,4%, contra 46% na média internacional. Apenas 11,4% nunca ou quase nunca usam telas. E 62% raramente realizam atividade educativa em computador ou tablet.

A combinação é o ponto: não é que a criança brasileira use mais tela que as outras — a diferença é modesta. É que o uso é quase todo não educativo, ao mesmo tempo em que a leitura compartilhada em casa é rara. O tempo existe. Ele só não está sendo ocupado por linguagem.

O que a escola pode fazer com esse dado amanhã?

O IELS não é uma avaliação de rede nem gera ranking de escola — mas dá cinco movimentos concretos para a pré-escola e o 1º ano:

  • Tratar a leitura em voz alta como currículo, não como transição. Horário fixo, livro escolhido com antecedência, mediação planejada. Para metade da turma, essa é a única leitura compartilhada da semana.
  • Levar a numeracia para a rotina, não para a folha. Contagem na chamada, comparação de quantidades na hora do lanche, reconhecimento de numerais no calendário. Os 44 pontos abaixo da média não se resolvem com atividade impressa.
  • Nomear as funções executivas no planejamento. Jogos de espera, de regra que muda, de instrução em duas etapas. São conteúdos, e o estudo mostra que estão sendo tratados como comportamento.
  • Fazer o livro sair da escola. Empréstimo semanal com um recado curto para o adulto: não é lição, é ler junto dez minutos. É a intervenção mais barata disponível contra o 14%.
  • Conversar com a família sobre tela e livro na mesma frase. Metade das crianças usa dispositivo todo dia; a disputa não é entre escola e casa, é entre o que ocupa aquele tempo.

Perguntas frequentes

O que é o IELS? É o Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-estar da Criança, avaliação da OCDE aplicada a crianças de 5 anos na pré-escola. Mede letramento emergente, numeracia emergente, funções executivas e habilidades socioemocionais.

Quando os resultados brasileiros foram divulgados? Em maio de 2026, com o relatório Building Strong Foundations for Life, da OCDE. No Brasil, a coordenação é do LaPOpE/UFRJ.

Qual foi a nota do Brasil? 502 em letramento emergente e 456 em numeracia emergente, numa escala em que 500 é a média internacional. Nas três dimensões de funções executivas, o país ficou abaixo da média.

Quantas famílias brasileiras leem para as crianças? Só 14% fazem leitura compartilhada em casa de três a sete vezes por semana. Outros 53% nunca ou raramente leem para a criança de 5 anos. A média internacional na faixa de três a sete vezes é de 54%.

O IELS avalia escolas ou redes individualmente? Não. É um estudo amostral comparado entre países, sem devolutiva por escola ou por município. Serve como diagnóstico de sistema, não como avaliação de desempenho local.

Fontes

  • OCDE — Building Strong Foundations for Life: IELS 2025, publicado em maio de 2026
  • Agência Brasil — “Estudo revela que 53% das famílias raramente leem para criança”, 5 de maio de 2026
  • Fundação Maria Cecília Souto Vidigal — resultados inéditos do Brasil no IELS
  • Revista Educação — “Estudo inédito faz um raio-X do desenvolvimento das crianças brasileiras”, 2 de setembro de 2026
  • LaPOpE/UFRJ — coordenação nacional do estudo (Tiago Bartholo e Mariane Koslinski)

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