O silêncio do vampiro

A obra é fruto de um estudo feito pelo escritor e jornalista curitibano Luiz Andrioli. A pesquisa foi desenvolvida durante o mestrado em Estudos Literários na Universidade Federal do Paraná. A dissertação foi apresentada na UFPR em 2010, sob a orientação da professora doutora Marilene Weinhardt. Para a publicação em livro, o texto foi retrabalhado, procurando aproximar ainda mais o conteúdo do leitor comum.

O silêncio do vampiro
O discurso jornalístico sobre Dalton Trevisan

“Tanto não é difícil alguém me encontrar

que eu esbarro comigo mesmo diariamente

nas esquinas de Curitiba”

Dalton Trevisan  em entrevista realizada no ano de 1968

 

“Penso no quão difícil seria escrever uma biografia do mínimo. Retratar uma vida vivida entre poucas paredes, que não o impediu de criar um mundo chamado Curitiba. Imagino esse escritor recluso em sua casa; andando da cozinha até seu gabinete de trabalho; suas fotos de família em porta-retratos; as louças do casamento; o cheiro da casa mista de madeira e construção; o armário onde guarda as frutas que compra nos passeios até o mercado municipal; uma pequena estante com poucos livros; uma porta rangendo; seu pijama pendurado em um cabide antigo de madeira; os remédios postados no criado mudo; um bloco de anotações na penteadeira; o cheiro de naftalina que vem de uma gaveta; o barulho das teclas (usará computador?) enquanto escreve.”

(Trecho de Carta para um velho vampiro, de autoria de Luiz Andrioli.)

 

Do que se trata? Luiz Andrioli abre o livro com uma “Carta para um velho vampiro”, contando a Dalton Trevisan a importância da produção literária deste para a sua própria formação como escritor mais jovem. A carta nunca foi remetida ao destinatário, porém é a maneira como Andrioli se aproxima de um dos seus mestres inspiradores para analisar de que forma o silêncio do contista curitibano, que não concede entrevistas para a imprensa há décadas, é apropriado pela mídia. O jornalista e escritor Luiz Andrioli se vale de depoimentos de terceiros e outras pistas e conjecturas para dar conta do recado e fazer chegar ao público uma história com verossimilhança e, assim, compreender a apreensão jornalística da obra literária de Dalton Trevisan.

Veja a videocrônica sobre Dalton Trevisan

“Tenham talento!”

Conselho de Dalton para os “aprendizes da Literatura” publicado na Gazeta do Povo, em 7 de junho de 1968

“Dalton diz: “Nasci em junho” e fica calado quanto ao dia, nem mesmo quando os amigos lhe indagaram se não estava fazendo aniversário, pois estamos em junho. Dalton Trevisan, de óculos, gravata, tomando “whisky and soda”, responde às vezes com bastante alegria às perguntas, sempre de maneira um pouco satírica, demonstrando simpatia. Quando não fala, permanece sério e meditando.”
Entrevista a Jorge Narosniak, no jornal Diário do Paraná, em 27 de junho de 1969.

“O escritor é uma pessoa que não merece nenhuma confiança. Um amigo chega e me conta as maiores dores; eu escuto com atenção, mas estou é recolhendo material para mais um conto. E eu sei disso na hora. Surge então a má consciência. Sei que estou fazendo assim e não desejaria fazer, mas não há outro jeito. O escritor é um ser maldito.”
Depoimento de Dalton Trevisan a Luiz Vilela, publicado no Jornal da Tarde de São Paulo, em 6 de julho de 1968.

“Interessa-me mais o que ele não fala nas elipses e omissões,

seja nas entrevistas ou livros”,

Luiz Andrioli em entrevista realizada no ano de 2013

Em 2013, o autor Luiz Andrioli recebeu três correspondências do Dalton Trevisan. Eram livros autografados.
Em um deles, o vampiro escreve: “agradecendo as palavras generosas”. Foi por conta do “O silêncio do vampiro” que havia sido publicado recentemente.
Em outro autógrafo, o escritor se coloca como “velho aprendiz”. Foi uma resposta à dedicatória de Andrioli no exemplar que havia lhe enviado, na qual assinou como “jovem aprendiz”.

Luiz Andrioli, escritor

Existe algo que insiste em gritar no meu peito. Eu sou um daqueles tipos que numa festa escolhe o canto mais discreto. Observo a vida correr com medo de entrar no carrossel. Não me faço de vitrine jamais. Sou um voyeur de emoções nas quais poucas vezes ouso molhar os pés. Ando descalço até, mas somente nas calçadas asseadas da minha racionalidade. Converso com as pessoas na exata medida em que minha inteligência consegue se mostrar interessante. Falo pouco, controlo as palavras. Quando, por descuido, solto o discurso além do filtro, procuro vigiar a frase que sai no instante em que reverbera no espaço. É quase um relatório instantâneo logo depois de cada expressão, antes mesmo da reação de meu interlocutor. Fico tentando imaginar quem sou este que fala além da imagem que pretendo manter. Não gosto de perder o controle das palavras e, por isso, falo pouco. Se pudesse transcrever as minhas conversas, o número de caracteres certamente ficaria aquém do que já escrevi na vida. Escrever é mais seguro do que falar.

O silêncio. Talvez por isso tenha procurado a sua literatura, Sr. Dalton.

Trecho de “Carta para um velho vampiro“, de Luiz Andrioli, texto de abertura do livro O silêncio do vampiro.

O silêncio do vampiro

Dalton Trevisan é conhecido pela concisão de suas palavras. Além disso, há décadas se nega a dar entrevistas ou declarações para a imprensa. Mesmo assim, os jornais não deixam de comentar sua obra. Luiz Andrioli analisa de que forma o silêncio do contista aparece na mídia. Em algumas situações, os profissionais da imprensa buscam na obra do autor as respostas necessárias para as perguntas que pretendiam fazer. Em outros momentos, é a interpretação a partir das palavras literárias do escritor que preenche as lacunas. Nas duas situações, percebe-se o silêncio de Dalton Trevisan como uma estratégia literária. É o vampiro de Curitiba alçando voo rumo à sua imortalidade.
A publicação deste livro levou o selo da Kafka Edições e foi incluída na coleção A capital, da Factum Pesquisas Históricas


Tudo o que Dalton não disse. Reportagem de Sandro Moser publicada na Gazeta do Povo
O (quase) silêncio do vampiro. Edição especial do jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, sobre Dalton Trevisan.

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