Meu Opa vive com a cabeça cheia de ideias.

Tem tantas que precisa guardar em seu grande chapéu.

A mamãe diz que o chapéu é só para esconder a careca, mas eu não acredito.

Eu sei que é para não perder por aí tudo o que ele sabe. 

Trecho do livro

Bate-papo com Adilson Farias

Prosa Nova: Qual é sua trajetória no mercado editorial?

Adilson Farias: Trabalho há mais de 20 anos nesse mercado. Então, posso dizer que já ilustrei para as principais editoras e trabalhei com os autores mais conhecidos, como Monteiro Lobato, Pedro Bandeira, Ruth Rocha e Ana Maria Machado. Sou autodidata, fui fazendo tudo por conta e, com a experiência, fui adquirindo conhecimento nesta área.

Prosa Nova: Como foi o processo do projeto Opa?

Adilson Farias: Quando meu sogro faleceu, eu, pai de primeira viajem, e a Nina, bem pequenininha, tinha apenas dois anos na época. Ela estava imune a essas coisas, nessa idade não percebe nada disso. Está imune a essas tragédias da vida. Mas eu, como pai, tinha que explicar para ela essa perda, mesmo ela não entendendo. Era a primeira pessoa tão próxima que ela iria deixar de ver. E pensei, naquele período, como explicaria o que é isso? Como explicar para uma criança o que é a doença e por que aconteceu o falecimento?

Daí comecei a pensar que poderia contar uma historinha. Então, já vieram os personagens e tive a ideia de fazer uma leitura visual do que é a doença em si. Tem um chapéu cheio de lâmpadas que vai se apagando ao longo da história e visualmente quer dizer que o vovô está se esquecendo das coisas. A metáfora traduz a sensação de que a vida está se apagando pouco a pouco. Tem a ver com essa doença, o mal de Alzheimer. Fiz da forma mais direta possível: um pai explicando para a filha. Achei mais fácil contar do ponto de vista de uma criança e é por isso que ela entra na história (Nina). É como se ela contasse tudo o que estava acontecendo e explicasse do jeito dela.

Prosa Nova: O que veio primeiro: as ilustrações ou o texto?

Adilson Farias: Primeiro eu fiz o texto, mostrei para o Luiz — diretor da Prosa Nova —. Como eu não sou escritor, não tenho experiência para escrever, mas imaginação para história eu tenho. Então, ele me deu uma ajuda mais editorial para organizar as ideias. E, como a história já estava pronta, o que fizemos foi polir o texto. Depois de o projeto estar aprovado pelo Profice, é que comecei a fazer as ilustrações mesmo. Até então, só alguns esquetes de personagens que eu tinha.

Prosa Nova: Conte mais sobre o personagem que inspirou o livro?

Adilson Farias: Eu sempre vi no meu sogro um personagem bom para se trabalhar. Na cidade dele, ele era conhecido como professor pardal (inventor). Gostava de inventar coisas e isso tinha que estar presente na história: um vovô inventor. Tentei aflorar bastante essa personalidade dele para o contexto ficar mais lúdico ainda.

Prosa Nova: Como foi o contato de Nina com o avô nesse momento da doença?

Adilson Farias: Nesta última fase, ela convivia diariamente com ele, morávamos no mesmo condomínio. Foi por conta disso que eu me cobrei como explicaria para ela que o vovô não estaria mais aqui. Todo dia ela o via. Certa vez, como ele já não parava mais na cama, preparamos um cantinho no chão. Essa era a referência da Nina. O Opa no chão.

Achamos engraçado quando o colocaram na cama. Nos últimos momentos, ele estava bem debilitado e não se mexia mais. A primeira vez que ela entrou no quarto, ficou procurando por ele no chão: Cadê o Opa? Ela o via todo dia no chão e aquele processo de mudança não fazia sentido para ela.

Significa muita coisa para mim. Engloba a questão afetiva da família, de estar honrando a memória dele e até de não deixar esquecer. É meu primeiro livro como autor de texto, um projeto totalmente autoral. Primeiro filho… (risos). Estou com muita expectativa para saber o que acontecerá. Está sendo muito especial também poder homenageá-lo e discutir essa questão sobre o que é a doença e talvez poder ajudar as pessoas que estão passando ou que já passaram por isso.

Eu tento amenizar, não deixar pesado, porque a vida é isso. Tem a partida e tem o recomeço. Às vezes, as pessoas acreditam que não é bom falar sobre essas questões com crianças. No entanto, como a doença não escolhe endereço, entendo que é importante dialogar sempre. Melhor antes do que no momento confuso e de tristeza. O que espero é que o livro ajude a suavizar esse processo em algumas famílias.

Já me perguntaram se eu tinha feito uma pesquisa sobre a doença. Não, eu quis fazer da forma mais simples e direta: um pai contando para a filha. Sem teorias e termos médicos, quis deixar o mais explicativo possível.

Adilson Farias

Adilson Farias
Autor e ilustrador

Há mais de 20 anos no mercado editorial, ilustrando para as principais editoras e trabalhando com grandes escritores, Adilson Farias agora realiza seu primeiro trabalho totalmente autoral.

Um verdadeiro artista e com profunda experiência, timidamente confessa ser autodidata, explicando como adquiriu todo o conhecimento que possui hoje. Em meio às palavras curtas e frases diretas formuladas de forma gentil, e até com certa emoção, o olhar detalhista não se esconde. Observa tudo e todos com muita atenção — minhas perguntas, considerações de Sonia Horn e brincadeiras quietas de Nina — nada escapa ao olhar aguçado do artista. Foi assim que ele enxergou um grande personagem no sogro, Neri Horn.

O jeito contido e quieto desaparece e dá lugar de fala ao ilustrador quando o assunto é a arte que domina, as ilustrações. Assim como conta Luiz Andrioli da vez em que chamou Adilson para conversar com uma turma da PUCPR. “Não sabia como seria porque ele é bem na dele, mas, quando chegou, se empolgou e falou várias coisas interessantes sobre o trabalho como ilustrador para a turma”.

E assim é com toda a família. Todos artistas com olhares aguçados e poucas palavras. Sonia Horn, esposa de Adilson e filha de Neri Horn, claramente possui grande admiração pelo trabalho do marido. Logo no começo da nossa conversa, Sonia admite ter chorado de emoção a primeira vez que leu o livro dedicado a seu pai, o Opa. Ela completa: “nós vivemos tudo aquilo, sentimos e, de certa forma, revivemos tudo de novo ao ler o livro”.

Todo esse trabalho foi realizado muito mais pelas mãos de um pai do que de um ilustrador. Adilson, como pai de primeira viagem, quis encontrar uma forma de explicar a situação à filha de dois anos que via todos os dias o avô cada vez mais longe da realidade. Foi assim que surgiu o livro Opa. Um projeto de grande significado ao artista e toda sua família e feito de experiências pessoais. Uma arte que nasceu de um pai para uma filha.

Quem foi o Opa de verdade?

 

Opa significa avô em alemão, assim era conhecido Neri Horn por todos da família. Opa criou oito filhos, seis meninas e dois meninos. Todos artistas. E foi Adilson, marido da sexta filha, Sonia Horn, que enxergou no Opa um bom personagem para se trabalhar.

Dos quatro netos de Opa, Nina é a mais nova, hoje com cinco anos. Quando Nina tinha dois anos, Opa faleceu devido ao Alzheimer. Nos seus dois primeiros anos de vida, Nina conviveu diariamente com o avô e, mesmo sem entender, viu de perto a doença tomando conta do Opa que um dia Neri foi.

Quando é para relembrar quem foi Neri Horn, Sonia não esconde o sorriso que as lembranças da infância causam. Na cidade onde cresceu, interior de Santa Catarina, Neri era conhecido como o professor pardal. Ou seja, um inventor. Em meio a boas risadas, a filha relembra o dia em que o pai inventou um carro, “levou muito a gente para a escola com aquele carro e depois o transformou em uma moto. Acabou vendendo com medo de que nos quebrássemos na moto”.

Essa pequena história relatada pela filha define quem foi Opa até seus últimos dias de vida. Mesmo perdendo as memórias, os conhecimentos adquiridos ao longo de uma vida toda, os passos e movimentos esquecidos e, assim, acabando com o professor pardal que um dia existiu, Opa continuou sendo a pessoa que a filha conhecia. “Todo mundo fala que com o Alzheimer a pessoa fica agressiva, mas com o pai, não. Ele sempre foi uma pessoa muito doce e, como a doença tira os ‘filtros’, acho que só aflorou essa bondade dele”.

Neri. Professor pardal. Opa. Um homem que passou para os oitos filhos esse olhar artístico, que deixou nas lembranças histórias divertidas e que viveu sendo quem sempre foi, apesar da doença.

Em novembro de 2016 deu seu último suspiro na casa onde vivia. Foi cuidado por todos, esposa e filhos. “Muitos optam por mandar para o hospital e seguram durante anos a pessoa sendo alimentada por uma máquina. Nós optamos por cuidar dele em casa, porque é muito sofrido condicionar a vida da pessoa em uma máquina se não tem mais volta”, conta Sonia ao falar sobre os últimos momentos de vida do pai.

Ela ainda revela que o mais triste em todo esse processo não foi ver o pai esquecer seus filhos, mas, sim, ele se esquecer de tudo. Esquecer como andar, como falar, como ingerir, como engolir. Esquecer-se de ser quem é. Ela explica que é “como se fosse uma casa, desliga um quarto, depois o outro”.

Através do olhar de Sonia e Adilson foi possível conhecer um pouquinho sobre quem foi esse homem que inspirou um livro e se eternizou no personagem Opa.

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