Fernando Koproski

O ano em que a Terra parou

 

a única razão de escrever um poema agora
seria se este poema conseguisse alimentar
e curar vocês que têm fome e enfermidades
será que este poema consegue fazer isto?
será que este poema consegue pegar minha filha
pela mão e levá-la para passear no parquinho?
será que este poema consegue levá-la para correr
no calçadão da xv dessa cidade do interior?
pois ela só queria isso. ela chora e só pede por isso.
será que este poema consegue fazer isto?

este seria o único motivo para escrever
um poema agora, para colocar rimas aqui.
este seria o único motivo para escrever
porque agora as pessoas estão morrendo
de fome, morrendo doentes sem remédios
e corpos estão sendo queimados nas ruas
você entende o que estou dizendo? ou
preciso pôr rimas pra você prestar atenção?
enquanto os poetas contam seus likes
e tentam vender seus livros pela internet
há pessoas morrendo sem ar… sim, sem ar…

será que se eu escrever um poema aqui
vai te ajudar a respirar?

Fernando Koproski

Fernando Koproski reuniu sua obra poética em Pequeno dicionário de azuis – Poesia reunida
1995 – 2017 (7Letras, 2018). Além de 11 livros de poemas, publicou a série de ficção A
complicada beleza, composta pelos romances: Narciso para matar, Crônica de um amor morto e A
teoria do romance na prática (7Letras, 2016), que estão aqui:
https://bit.ly/BaileDeMascarasCV19

Arte parada no ar | TANAHORA

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Arte parada no ar | Luiz Felipe Leprevost

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Arte parada no ar | Montenegro Produções

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Arte parada no ar | Benedito Costa Neto

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Benedito Costa NetoSou o Benedito Costa Neto, escritor, professor, crítico. Meu trabalho está parado no ar. A escrita pode ser fuga, restauração, grito, mas também pode ser silêncio. É bom quando o silêncio é uma escolha e não uma mordaça. Admiro muito quem possa numa...

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Manifesto
Arte parada no ar

 

O perigo vem pelo ar
O simples respirar é um risco
Estamos em suspenso
Atônitos
Parados

Se antes ofegantes
pelos tempos sombrios da política,
agora interrompemos a inspiração
Nosso ofício
marcado pelo encontro de pessoas
parou

Artistas isolados
Os primeiros a parar
Sem saber quando poderemos voltar

Nossos palcos cobertos de poeira
Refletores no escuro
Exposições com quadros no chão
Músicos sem plateia
Picadeiros sem graça
Sapatilhas guardadas 
Livros inéditos
Câmeras desligadas

Registramos nosso momento em imagens e textos.
Criamos, sim, dentro dos limites deste novo normal
que ainda não imaginamos
nem nas distopias mais futuristas

Um rascunho
Um ensaio aberto
Um improviso

Um respiro
mediado por telas digitais
e máscaras

Arte parada no Ar
Um retrato
e um desabafo
de criadores que resistem

Arte parada no ar é um manifesto em construção.
Nossa inspiração vem do texto “Um grito parado no ar”, de Gianfrancesco Guarnieri. A peça estreou em 1973 em Curitiba, com direção de Fernando Peixoto. A obra driblou a vigilância da ditadura de então ao usar de uma linguagem metafórica para discutir os problemas sociais. O drama fala sobre as dificuldades de se fazer arte em um tempo de repressão.

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