Duplo Produções

Estava em cartaz com o espetáculo
“O Casamento da filha do palhaço”

Não há por estes dias pintor mais atual que Edward Hopper (1882-1967). Tal como Hopper, tento converter em arte a solidão e o confinamento. Suas pinturas onde a distância social é quase obrigatória, são retratos autênticos de uma realidade global. Estamos sozinhos e solíssimos, tendo a possibilidade de – tal qual o artista – contemplar a alma humana naqueles momentos em que o desespero se conecta à esperança, em que o desejo de pertencer ao que está fora, se expressa no nosso olhar, na intenção, nas mãos ansiosas que desejam, anseiam a liberdade e a possibilidade de criar novamente.

Como nos quadros, artista que sou, tento pensar a vida do agora não em um retrato da realidade, mas uma interpretação subjetiva, interior, que analisa mais a fundo o que estou vivenciando nestes tempos melancólicos. Em várias imagens, os personagens de Hopper são consumidos por uma aura de melancolia, como algemas em um estado sem escapatória. Sim, assim estamos, mas não necessariamente, precisamos nos agarrar a isso para seguir em frente. O ponto não está em não ficar melancólico, triste, mas não se deixar paralisar por esse sentimento.

Nosso espetáculo, “O Casamento da Filha do Palhaço. Uma Ópera Rock”, fez sua última apresentação pré-pandemia dia 13/03, uma sexta-feira. Depois as apresentações continuaram somente em nossas mentes e corações. O anseio ao retorno me fez participar do #arteparadanoar. Com esta foto, tal como Hooper, tento transformar a melancolia em arte. O cenário tem saudades de nós, o palco tem saudade de nós. O Teatro sente falta de cada artista, de cada técnico. E nós sentimos falta dele. Muito.

Estamos assim:  saudosos, melancólicos, ansiosos, um mistura de sentimentos que a pandemia, de certa forma, nos convida a um olhar interno, nos recolhermos dentro de nossas casas e de nós mesmos, contribuindo efetivamente para uma nova forma de relação, ampliando a escuta, sem senso de julgamento ou aquela vontade autocentrada de falar sobre si mesmo e sua criação. O novo convívio real está na capacidade de dialogar e acolher. Infelizmente precisou que uma pandemia viesse para nos alertar disso. Sigamos no amor, no coletivo e na arte que salva.

Laura Haddad
Tarde de outono de 2020.
Duplo Produções Culturais

Laura foi a primeira incentivadora e madrinha do nome do projeto #arteparadanoar

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Arte parada no ar

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Manifesto
Arte parada no ar

O perigo vem pelo ar
O simples respirar é um risco
Estamos em suspenso
Atônitos
Parados

Se antes ofegantes
pelos tempos sombrios da política,
agora interrompemos a inspiração
Nosso ofício
marcado pelo encontro de pessoas
parou

Artistas isolados
Os primeiros a parar
Sem saber quando poderemos voltar

Nossos palcos cobertos de poeira
Refletores no escuro
Exposições com quadros no chão
Músicos sem plateia
Picadeiros sem graça
Sapatilhas guardadas 
Livros inéditos
Câmeras desligadas

Registramos nosso momento em imagens e textos.
Criamos, sim, dentro dos limites deste novo normal
que ainda não imaginamos
nem nas distopias mais futuristas

Um rascunho
Um ensaio aberto
Um improviso

Um respiro
mediado por telas digitais
e máscaras

Arte parada no Ar
Um retrato
e um desabafo
de criadores que resistem

Arte parada no ar é um manifesto em construção.
Nossa inspiração vem do texto “Um grito parado no ar”, de Gianfrancesco Guarnieri. A peça estreou em 1973 em Curitiba, com direção de Fernando Peixoto. A obra driblou a vigilância da ditadura de então ao usar de uma linguagem metafórica para discutir os problemas sociais. O drama fala sobre as dificuldades de se fazer arte em um tempo de repressão.

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