Asaph Eleutério

Sou artista. Nada a se orgulhar, mas sim uma condição existencial. Me formei em música em 2016, estava com projeto aprovado e apresentação marcada para dia 29/03 pela Fundação Cultural de Curitiba, no Parque do Tropeiro, logo antes de tudo isto acontecer.

Bem, como falei inicialmente, ser artista nunca foi nenhum “dom miraculoso” para mim. Sempre esteve mais para maldição do lobisomem. Entretanto, agora tudo mudou. Deixo meu violão, velho de guerra encostado no ar. A foto talvez não tenha sido a melhor. Mas juro que tentei. Quero dizer algo com ela.

Sim, estou parado no ar. Mas não me sinto inerte. Me sinto mais como em um estado novo desta minha maldição lobisomensísitica.  Agora sou o Eusébio a desbaratinar os credores e o Fernando a mandar o cheque frio de quatrocentos e poucos contos. Sou um mesclar de identidades que conseguem dizer alguma coisa. Mas de Guarnieri pra cá, só muda o meio, meus caros. Batalhar ainda é preciso.

Esta pandemia e seus reflexos político-sociais não são provenientes do COVID-19 somente. Há um longo processo de transformação do artista local ao longo de no mínimo 2011, segundo minha opinião. Um mover-se em direção a nichos mercadológicos e a internacionalização por meio das mídias digitais. Chico Science e Nação Zumbi e o movimento Psycho aqui de CWB mostram que desde a década de 90 estes movimentos acontecem. A pandemia só fez a gente se segurar no cipó mais firme. O Corona não fez a gente ficar distante. Não matou nossos desejos. Nos tornou mais conscientes do que acontece ao nosso redor.

Me torno um Lobisomem etéreo. Capaz de contaminar de formas novas. Contaminar com mensagens. Minha condição de artista não muda. Só me torna mais responsável por explicar isso tudo para mim mesmo e para meus filhos lobisomenzinhos do futuro. Minha arte se vale, subsiste, se agrega. Sou vírus, me coaduno e multiplico a partir de uma simples frase. Como naquela peça maravilhosa de Gianfrancesco Guarnieri “Um grito parado no ar”, me sinto expressando algo. Mesmo que sejam alguns parágrafos. Que estas frases lidas sejam o uivo deste lobisomem parado no ar.

Asaph Eleutério
Músico

 

Arte parada no ar | TANAHORA

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Arte parada no ar | Benedito Costa Neto

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Manifesto
Arte parada no ar

O perigo vem pelo ar
O simples respirar é um risco
Estamos em suspenso
Atônitos
Parados

Se antes ofegantes
pelos tempos sombrios da política,
agora interrompemos a inspiração
Nosso ofício
marcado pelo encontro de pessoas
parou

Artistas isolados
Os primeiros a parar
Sem saber quando poderemos voltar

Nossos palcos cobertos de poeira
Refletores no escuro
Exposições com quadros no chão
Músicos sem plateia
Picadeiros sem graça
Sapatilhas guardadas 
Livros inéditos
Câmeras desligadas

Registramos nosso momento em imagens e textos.
Criamos, sim, dentro dos limites deste novo normal
que ainda não imaginamos
nem nas distopias mais futuristas

Um rascunho
Um ensaio aberto
Um improviso

Um respiro
mediado por telas digitais
e máscaras

Arte parada no Ar
Um retrato
e um desabafo
de criadores que resistem

Arte parada no ar é um manifesto em construção.
Nossa inspiração vem do texto “Um grito parado no ar”, de Gianfrancesco Guarnieri. A peça estreou em 1973 em Curitiba, com direção de Fernando Peixoto. A obra driblou a vigilância da ditadura de então ao usar de uma linguagem metafórica para discutir os problemas sociais. O drama fala sobre as dificuldades de se fazer arte em um tempo de repressão.

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