Karen Giraldi

O barco está atracado no porto. Ele, que antes conectava musicalmente Portugal e Brasil toda semana no Restaurante Ibérico, aguarda agora o tempo favorável. Sim, mar calmo nunca fez bom marinheiro, mas marinheiro preso em terra firme nada pode fazer. E diferente das tormentas habituais, esta é invisível, tomou todos os oceanos e não tem data para acabar.

O planeta virou uma grande arca, mas invadida pela água. Estamos armados de baldes, sem saber quando a chuva vai parar de cair. No horizonte, avistamos alguns barcos rumando em direção à já conhecida ameaça. Lamentamos, mas sabemos que cada um é comandante do seu próprio eu.

Embora estejamos dividindo os mesmos anseios, na verdade estamos presos em nossos próprios barcos. Seriam barcos ou botes salva-vidas? E salvariam nossas vidas? Aí que entra a arte. A arte é como o raio de sol entre as nuvens pesadas. O Sol nos lembra: “o céu está escuro, mas eu continuo aqui”. E com esse brilho, nosso olhar se levanta da tormenta.

O silêncio paira sobre a arte. A arte está parada no ar. Você até pode ter acesso à ela. Ela vem embalada, firme, enviada, conectada, distante, compartilhada, digital, em telas de vidro, ondas elétricas. Mas você não a sente da mesma maneira. Você a consome com um oceano de distância. Com o distanciamento, você não sente o peito vibrar com a música tocada ao vivo. Não troca seu olhar marejado com os olhos do ator. Não respira no ritmo da execução da dança. Não imerge numa história acomodado em frente a uma imensa tela. A arte digital nesta pausa é nosso salva-vidas, mas não dá para viver eternamente dentro do bote.

E por enquanto, nada de Fado. Que fardo árduo, desacostumar com o fato do Fado ainda arder saudoso no peito. Quanta água salgada vi escorrer das faces de gente que sentiu saudade de um tempo que não volta mais! Agora, vivemos nosso próprio tempo: tormentas individuais num oceano de incertezas. Isolados, mas conectados. Alimentados, mas nunca saciados. E assim continuamos aguardando as boas novas para retomar nossa rota: a conexão da Pátria-Mãe com a Terra de Vera Cruz. Que logo possamos reunir novamente dois povos tão diferentes, mas tão parecidos principalmente na vontade de fazer arte, seja em qual continente for.

Karen Giraldi
Cantriz, locutora & dubladora
www.karengiraldi.com

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Manifesto
Arte parada no ar

O perigo vem pelo ar
O simples respirar é um risco
Estamos em suspenso
Atônitos
Parados

Se antes ofegantes
pelos tempos sombrios da política,
agora interrompemos a inspiração
Nosso ofício
marcado pelo encontro de pessoas
parou

Artistas isolados
Os primeiros a parar
Sem saber quando poderemos voltar

Nossos palcos cobertos de poeira
Refletores no escuro
Exposições com quadros no chão
Músicos sem plateia
Picadeiros sem graça
Sapatilhas guardadas 
Livros inéditos
Câmeras desligadas

Registramos nosso momento em imagens e textos.
Criamos, sim, dentro dos limites deste novo normal
que ainda não imaginamos
nem nas distopias mais futuristas

Um rascunho
Um ensaio aberto
Um improviso

Um respiro
mediado por telas digitais
e máscaras

Arte parada no Ar
Um retrato
e um desabafo
de criadores que resistem

Arte parada no ar é um manifesto em construção.
Nossa inspiração vem do texto “Um grito parado no ar”, de Gianfrancesco Guarnieri. A peça estreou em 1973 em Curitiba, com direção de Fernando Peixoto. A obra driblou a vigilância da ditadura de então ao usar de uma linguagem metafórica para discutir os problemas sociais. O drama fala sobre as dificuldades de se fazer arte em um tempo de repressão.

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