Marcello Karagozwk

O estreito corredor

 

O que vem contra nós é inesperado.

Espalha-se rapidamente pelo seu grande poder de contágio.

ATENÇÃO !!! PROTOCOLOS, NOVO NORMAL.

Eu sempre tive uma espécie de intuição, uma voz interior que me batia, emergindo lá do fundão do meu inconsciente. Uma espécie de sentimento que me provocava aspirações do tipo:  tenho que ser forte, ter diversas habilidades, sobrevivência na selva com escassez de água e alimentos, saber agir em situações hostis, dominar tecnologia, luta corporal e até sobreviver ao caos urbano.  Imaginava cenários caóticos e desoladores…. Mas sempre com otimismo e força. Porque embora todos temos limites e defeitos, em mim, a perseverança grita alto.

E isso, a tal intuição, volta ainda, de tempos em tempos, em devaneios obsessivos quando penso no futuro.  Eu temo uma espécie de uma guerra, em um ambiente semelhante ao Mad MAX II, o filme, com inúmeros fragmentos.

Mas e o AGORA?

Na década de 80 tinha uma música do Milton Nascimento que no seu verso final era assim:

“……  que tragédia é essa que cai sobre todos nós……”, eu lembrei dela esta semana. Chama “Promessas de Sol” .

Bem, hoje é o DIA 74 do momento Covid, e meu país, O Brasil, já deve ser o epicentro da pandemia.

Eu penso, eu rezo, eu cuido dos mus filhos, da minha companheira,  eu como , eu fumo , eu me exercito, eu limpo a casa, eu leio, estudo violão, cozinho muito e lavo louças,  eu fiz minha mudança, eu não deixo o medo bater eu me protejo, eu penso , eu penso , eu penso muito……

Outro dia enquanto estendi algumas roupas pensava:

“  mas o teatro é uma arte  de presença, a gente causa emoções em tempo real, na magia e na brincadeira com a plateia….,  mas como fazer não estando presente ?  Mas como ocupar 25% da pateia no máximo, como retomar as atividades?  Hum….  “

Enquanto isso lá fora uma boa parte das pessoas e do mundo assumem uma roupagem totalmente “tiro no pé “.   Mas a VIDA não tem preço, e é tudoooooo que podemos ter. E este aspecto, politicamente é muito perigoso. Quando o limite é a vida, para muitos banal, para outros o maior dos desejos, eu penso que é perigoso, transitar neste limite é perigoso. Porque se é assim, é porque o restante não esta bom.,

Bem, eu me sinto bem . Bem porque tenho sido protetor da galera aqui de casa e quando no ateliê, sigo o caminho… Investigando, descobrindo um novo teatro que eu ainda não sei…..

Mas peço aos deuses das artes que nos deixem um terreno fértil.

Enquanto houver arte, criação, haverá vida , pensamento, posicionamento,  emoções,  ou seja, a arte de ser e a arte de olhar….. olhar com arte.

“Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer NÂO, eu canto !! (Belchior)

Quando fui interrompido pela pandemia do Covid 19 eu estava  na pré-produção de uma viagem  por 4 cidades do Paraná com o espetáculo “Menestrel conta a Imigração no Paraná”, e logo e percebi  que o teatro seria uma da primeiras atividades  que iriam parar e uma das últimas a voltar ao funcionamento…..  

Eu me sinto em um estreito corredor, cheio de curvas, espelhos e muito planos e degraus irregulares, seguindo em frente encontrando formas de dominar um equilíbrio precário.

Marcello Karagozwk
Em Curitiba, 29 de maio de 2020
Companhia Karagozwk

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Arte parada no ar

Manifesto
Arte parada no ar

O perigo vem pelo ar
O simples respirar é um risco
Estamos em suspenso
Atônitos
Parados

Se antes ofegantes
pelos tempos sombrios da política,
agora interrompemos a inspiração
Nosso ofício
marcado pelo encontro de pessoas
parou

Artistas isolados
Os primeiros a parar
Sem saber quando poderemos voltar

Nossos palcos cobertos de poeira
Refletores no escuro
Exposições com quadros no chão
Músicos sem plateia
Picadeiros sem graça
Sapatilhas guardadas 
Livros inéditos
Câmeras desligadas

Registramos nosso momento em imagens e textos.
Criamos, sim, dentro dos limites deste novo normal
que ainda não imaginamos
nem nas distopias mais futuristas

Um rascunho
Um ensaio aberto
Um improviso

Um respiro
mediado por telas digitais
e máscaras

Arte parada no Ar
Um retrato
e um desabafo
de criadores que resistem

Arte parada no ar é um manifesto em construção.
Nossa inspiração vem do texto “Um grito parado no ar”, de Gianfrancesco Guarnieri. A peça estreou em 1973 em Curitiba, com direção de Fernando Peixoto. A obra driblou a vigilância da ditadura de então ao usar de uma linguagem metafórica para discutir os problemas sociais. O drama fala sobre as dificuldades de se fazer arte em um tempo de repressão.

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