Luiz Felipe Leprevost

A estreia da peça estava marcada para março. Abriria o Festival de Teatro de Curitiba.
Eu fazia parte do elenco desta montagem, produzida pelo Teatro de Comédia do Paraná, com direção de Rodrigo Portella. A peça, finalista do Pulitzer de 2018, era TodoMundo (Everybody), de Branden Jacobs-Jenkins. Na trama, Deus está insatisfeito com a humanidade e ordena que sua assistente, a Morte, busque “TodoMundo” para prestar contas. Deus está exigindo um balanço de como as pessoas passaram até então seu tempo na terra. Desnecessário dizer que há algo de apocalíptico no ar da peça que, apesar disso, é uma comédia. Sua escrita, não podendo ser mais contemporânea, está toda estruturada em uma forma de teatro medieval, em que as personagens aparecem como alegorias. Bem, cá fora do palco, uma semana antes da estreia, o país parou, por causa da pandemia de corona vírus. No começo eu tinha a esperança (ou a ilusão) de que tudo passaria logo. Porém, longe de ser um negacionista, mantive-me atento ao que diziam a OMS e as autoridades de saúde do país. Liguei para um primo médico que reiterou a gravidade da doença. Ao longo desse período todo, atônito (para dizer o mínimo), tenho assistido uma a uma as ações irresponsáveis e desumanas do presidente, que parece ter o perverso prazer de criar caos. Estamos em quarentena há quatro meses, prestes a atingir o inaceitável número de 40 mil mortes, enfrentamos a pandemia e a tormenta política causada pelo atual governo e suas milícias. Assim como na peça de Jacobs-Jenkins, nunca me pareceu tão necessário fazer um balanço de como estamos passando nosso tempo na terra.

Luiz Felipe Leprevost
Ator e escritor

 

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Manifesto
Arte parada no ar

s.

O perigo vem pelo ar
O simples respirar é um risco
Estamos em suspenso
Atônitos
Parados

Se antes ofegantes
pelos tempos sombrios da política,
agora interrompemos a inspiração
Nosso ofício
marcado pelo encontro de pessoas
parou

Artistas isolados
Os primeiros a parar
Sem saber quando poderemos voltar

Nossos palcos cobertos de poeira
Refletores no escuro
Exposições com quadros no chão
Músicos sem plateia
Picadeiros sem graça
Sapatilhas guardadas 
Livros inéditos
Câmeras desligadas

Registramos nosso momento em imagens e textos.
Criamos, sim, dentro dos limites deste novo normal
que ainda não imaginamos
nem nas distopias mais futuristas

Um rascunho
Um ensaio aberto
Um improviso

Um respiro
mediado por telas digitais
e máscaras

Arte parada no Ar
Um retrato
e um desabafo
de criadores que resistem

Arte parada no ar é um manifesto em construção.
Nossa inspiração vem do texto “Um grito parado no ar”, de Gianfrancesco Guarnieri. A peça estreou em 1973 em Curitiba, com direção de Fernando Peixoto. A obra driblou a vigilância da ditadura de então ao usar de uma linguagem metafórica para discutir os problemas sociais. O drama fala sobre as dificuldades de se fazer arte em um tempo de repressão.

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